No dia 30 de setembro de 2025, ocorreu o Encontro 5 do nosso Grupo de pesquisa Eiras-Paracambi.
O evento consistiu na projeção do filme "Eiras, Paracambi" (2024, 40 min.), produzido e realizado pelo nosso grupo, na leitura posterior de três textos escritos para a ocasião (abaixo), e em uma conversa aberta com os pessoas presentes e as mediadoras Paula Borsoi (psicanalista, Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Psicose e Saúde Mental do ICP/RJ), Suely Azevedo (psicanalista, membro do Núcleo de Pesquisa Psicose e Saúde Mental do ICP/RJ).
O evento aconteceu à convite do Núcleo de Psicose e Saúde Mental do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (ICP/RJ) da Escola Brasileira de Psicanálise.
Título do evento: "Os efeitos da desconstrução do manicômio nos tratamentos possíveis da psicose: furos genealógicos e seus restos".
Seguem algumas imagens do evento assim como os três textos lidos.

As ruínas e os restos
por Désirée Simões
Psicanalista, Mestre em Psicossociologia e Ecologia Social – UFRJ, Especialista em Psicanálise e Saúde Mental - UFFQuando nos reencontramos, anos após termos nos despedido no dia da demissão, Jacqueline e eu ainda estávamos indignadas, com muitas perguntas em aberto. Perguntas que se deslocaram das pessoas para as instituições. Eu pessoalmente me perguntava como os serviços de saúde mental do Estado podiam ser eles próprios os agentes de violência contra os cidadãos de seu território. Qual é o projeto clínico político que orienta a construção dessas instituições? Quais são os meios que sustentam seus modus operandi? Quais são suas verdadeiras finalidades? Há efetivamente objetivos terapêuticos em seu fazer? Se terapêuticos, pra quem? Para o Estado e suas finalidades ou para a população necessitada de cuidados?
Movidas por estas perguntas, orientadas pelo afeto de angústia que atravessava cada uma de nós de um modo singular, começamos a estudar. Formamos um cartel sobre o Seminário X – A Angústia, de Lacan e o Antoine se uniu a nós para estudar a obra de Michel Foucault. Tempo de reflexões, em que se consolidou em nós a vontade de produzirmos uma narrativa através da linguagem cinematográfica sobre a história manicomial brasileira. Para isso, escolhemos a Casa de Saúde Dr. Eiras – Paracambi. Manicômio localizado na Baixada Fluminense, fechado em 2012, sobre o qual haviam poucas notícias. Salvo um trabalho aqui, outro ali, quase sempre focados na história de seu fechamento. Mas antes do fechamento, o que acontecia ali? Porque não se falava na construção de um espaço memorial para preservar aquela história e expandir a compreensão das finalidades dos hospícios no Brasil?
Como início do projeto, começamos a frequentar a cidade de Paracambi e a ir de modo repetido para a porta principal da Casa de Saúde Dr. Eiras, onde nos encontrávamos com as ruínas inacessíveis do antigo manicômio. Ruínas que representam os restos daquela história, que sem palavras dão notícias de um passado movimentado e lucrativo. Conforme Lacan nos diz em O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise, “o lugar sempre teve seu peso para estabelecer o estilo da manifestação” (LACAN, 1992, p. 15). Em nossas conversas em frente às ruínas, nos perguntávamos sobre quais manifestações discursivas aqueles restos nos davam indícios.
Os encontros com aqueles restos materiais de hospício produziram em nós uma confusão, pois as histórias que nos contavam os moradores da cidade a respeito daquele espaço se apresentavam de dois modos: haviam as pessoas que nos falavam sobre aquele hospital com afeição, remontando um tempo economicamente áureo e aqueles que nada diziam além de um “não sei” vago e rápido. As pesquisas que fazíamos pelos arquivos públicos das grandes instituições e realizadas pela internet traziam apenas fragmentos de histórias. Fragmentos com algo em comum: as narrativas de violências institucionais, de mortes rápidas após a entrada de pacientes até então saudáveis no espaço, a atuação de uma irmandade católica de freiras e uma irrefutável ligação com o golpe que instaurou a ditadura no Brasil em 1964.
Confusão que nos deixa ainda inquietos, dado que como afirma Lacan no Seminário supracitado, p. 14, “[...] da própria confusão temos que extrair uma reflexão, pois trata-se dos limites e de sair do sistema. Sair dele em virtude de que? De uma sede de sentido como se o sistema o necessitasse. O sistema não tem nenhuma necessidade. Mas nós, seres de fragilidade [...] nós temos necessidade de sentido”.
Diante da necessidade de sentido reconhecida em nós, enquanto pesquisadores, entendo a produção do filme como uma tentativa de simbolização daquilo que se apresenta como lacunas nesta história, que se cruzam, de alguma forma, com as lacunas que parte de nosso grupo de pesquisa ainda experimenta da vivência traumática que nos confrontou com algo da dimensão do real da história manicomial brasileira.
Referência bibliográfica:
LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. (1969-1970). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. pp. 14-15.
Entre a repetição e o apagamento
por Jacqueline da Costa
Psicanalista e pesquisadoraQuando um manicômio se encerra e fecha suas portas, somos convocados a lidar com a subjetividade no laço social. Estive às voltas com essa ideia do que pretendemos trabalhar aqui em relação aos “tratamentos possíveis da psicose”. Entendo que exista nessa concepção uma tentativa de pensar possíveis formas de trabalho a partir daquilo que para a psicanálise é soberana, a clínica. Fui atravessada por essa ideia de “tratamentos possíveis” e o que me convocou ao trabalho foi me perceber dividida entre, de um lado, pensar nas possibilidades mesmo de um tratamento pela via da saúde psíquica a partir de um lastro e endereçamento pela palavra... de outro lado, a ideia de tratamento no sentido mesmo de tratativa, de tratar, de estar em relação com e de, portanto, se relacionar não apenas como déficit, como ausência de recurso simbólico, mas sim como uma subjetividade que está inserida no laço social. Nesse caso, não me refiro apenas aos antigos residentes da instituição, mas também dos profissionais que certamente foram confrontados com aquela realidade dura de uma precariedade de trabalho. Quando seguimos nessa direção inesquivável de fechamento dos manicômios somos todos – e aqui todos mesmo, tanto aqueles que saem da instituição total quanto nós, que estamos aqui em uma tentativa de nos inclinar sobre esse trabalho, quanto o resquício de uma família que ainda possa restar desse sujeito –, somos todos confrontados com o fato de que precisaremos nos relacionar com a psicose, no trato do dia a dia, no cotidiano, na cidade. Antes, apenas corpos esquecidos, apagados, e agora uma subjetividade encarnada em sujeito. Bem sabemos que muitas vezes a loucura é uma possibilidade de saída que ainda pretende preservar alguma vida que seja, uma saúde psíquica, subjetiva, simbólica. Quando os manicômios se encerram, a cidade precisa lidar com esses sujeitos que agora passam a ser sujeitos no mundo, passam a ser, na melhor das hipóteses, sujeitos desejantes e que estão no discurso, que dividem com a gente a palavra. Bom, esse é um ponto.
O outro ponto é que não geramos imagens da psicose porque ela não estava mais lá. Apenas seus restos e fragmentos de histórias que estamos tentando remontar. No filme, os sons da natureza insistem que ali existe vida. A vida rural, pacata, bucólica que quase nos faz acreditar em uma inocência, quase imprime uma certa ingenuidade sobre o território que pelas imagens não parece carregar as marcas daquilo que descobrimos ao longo dos anos com essa pesquisa: aquilo que não vemos, o que não aparece e o que tenta se apagar da história. Esse foi nosso intuito, isto é, não criar imagens que não estavam ali possíveis de ser vistas a olho nu porque não estão mais ali mesmo. A psicanálise nos dá recursos para, a partir da palavra, podermos elaborar aquilo que parece não estar lá. Mas sabemos que alguma coisa opera a partir da linguagem. E essa operação tem efeitos. Me instiga a ideia daquilo que apesar de parecer invisível, parecer não estar mais ali e que ainda assim exista nisso uma repetição. A contradição de uma história que se repete ao mesmo tempo em que tenta ser apagada para gerar esquecimento. Parece um sintoma que nos constitui como sociedade brasileira, é dessa forma que escrevemos nossa história. Mas quando percebemos a repetição é mais fácil identificar nisso uma proposta de construção bem consolidada. É dessa forma que operamos aqui. Essa é a história do nosso país. Em Paracambi isso ficou latente, quando percebemos uma mesma história nos diferentes hospitais psiquiátricos do território bem como nas fábricas, instituições totais e totalizantes que se iniciam e se encerram em si mesmas. Mas deixam seus rastros, principalmente porque existem sujeitos que ainda estão ali e que, portanto, contam sua história. Trazem a memória para o discurso. Uma história que se joga por debaixo do tapete e que se não tentamos descobri-la, no sentido mesmo de levantar esse tapete que a cobre, parece que ela não existiu. E isso facilita a manipulação do que achamos saber ser nossa história. É importante termos no horizonte a quem interessa esse apagamento. Embora seja uma história pouco contada e que pareça invisível, se repete. Para que a história não se apague e não seja esquecida, é necessário que esteja no discurso. Isto é, a preservação da memória se faz a partir dessa entrada no discurso. Assim a transmissão vai ocorrendo, na tentativa de que não seja apagada e esquecida. Fazer memória de histórias que constituíram nosso país dão suporte para uma leitura mais sofisticada e fina sobre os sujeitos, bem como recolher as consequências atuais de processos que se iniciaram no passado, mas que ainda insistem em perdurar.
As imagens que faltam
por Antoine de Mena
Cineasta, artista e historiadorQuando Désirée e Jacqueline me falaram pela primeira vez da Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, e evocaram o esquecimento histórico e historiográfico ao qual a instituição vinha sendo relegada, a ideia de um filme se impôs quase imediatamente. Mas, mais do que um filme, foi um campo de reflexão que se abriu: sobre a história brasileira, suas continuidades e descontinuidades, e sobre os modos pelos quais ela se escreve... ou se apaga.
Minha formação se situa nesse cruzamento: sou cineasta e historiador. E talvez por isso, na minha prática artística — seja no cinema, seja nas artes plásticas —, não consigo abordar um objeto sem inscrevê-lo na espessura do tempo longo, sem projetá-lo nesse campo instável de possíveis onde passado e futuro se tensionam mutuamente. A história, nesse sentido, deixa de ser uma linha para se tornar uma zona de vibração: um diálogo aberto entre aquilo que foi, aquilo que poderia ter sido, e aquilo que ainda pode vir a ser. Um campo simultaneamente retroativo e visionário, que resiste tanto às teleologias quanto às leituras deterministas do devir.
O encontro com a Casa de Saúde Dr. Eiras nos lançou diretamente em questões fundamentais: como escrever a história? Como representá-la? E, sobretudo, como lidar com aquilo que escapa à representação? Essas perguntas não precederam o filme — elas o acompanharam, deslocando-se com ele, infiltrando-se em cada gesto de filmagem.
Ao longo dos cinco dias de filmagem em Paracambi, algo foi se tornando evidente: o lugar não se oferecia como objeto, mas como estratificação. A cada visita, novas camadas emergiam — não como respostas, mas como densidades. O espaço se tornava mais espesso, mais opaco, mais resistente à captura. E, paradoxalmente, era nesse movimento que o filme encontrava sua precisão: enquanto o campo de investigação se expandia, sua medula se tornava mais nítida.
Talvez o cinema documentário seja precisamente isso: não a construção de um saber, mas a emergência de uma memória atravessada por acidentes, por indícios, por aquilo que irrompe sem aviso. Como sugere Frederick Wiseman, não se trata de saber exatamente o que se vai filmar, mas de saber algo — ainda que de forma difusa — sobre aquilo que se busca.
E o que sabíamos, ao chegar em Paracambi? Muito pouco — ou quase nada. Havia, no entanto, uma intuição inicial, um afeto motor: a angústia. Era ela que orientava o gesto, que dava direção ao olhar. Uma angústia diante do colapso, da perda, da ausência de sentido. E foi nesse confronto com o vazio que uma linguagem começou a emergir, não como decisão, mas como consequência.
Diante da instituição desativada, nos víamos, de certo modo, na posição do K. de O Castelo, de Kafka: circulando em torno de um centro inacessível, sem jamais penetrá-lo — e, talvez mais importante, sem sequer formular plenamente a pergunta sobre essa impossibilidade. Permanecer ali, nesse estado de suspensão, tornou-se parte do próprio método.
Cada retorno a Paracambi aprofundava esse confronto. E, como em Beckett, instaurava-se uma espera — não por uma revelação, mas por uma espécie de esgotamento do sentido. Esperar, aqui, não era antecipar algo, mas sustentar o vazio.
Foi nesse regime que o filme se escreveu também na montagem. Uma escrita que se impôs progressivamente, buscando preservar um certo nível de silêncio, de rarefação, alternando entre a presença dos espaços e a leitura de cartelas. Uma escrita que não explicasse, mas que mantivesse aberto o campo de tensão.
Desde cedo, tornou-se claro que o arquivo do filme não estaria fora dele. O único arquivo possível era o próprio lugar — atravessado pela presença dos nossos corpos, por suas dissonâncias, por seus gestos mínimos. E foi nesse encontro entre corpo e espaço, entre presença e estratificação, que emergiu algo como uma constante: uma linha de força predatória e colonial atravessando tempos e formas, marcada pelo segredo, pelo medo e pela violência.
E, no entanto, o filme não oculta nada. Ele mostra — ou parece mostrar — tudo. Mas talvez seja justamente aí que reside seu paradoxo: não há nada a ver. Ou melhor, aquilo que está em jogo não pertence inteiramente ao domínio do visível. Talvez o horror da história não seja da ordem da imagem. Talvez o real, em sua opacidade, resista — e sempre resistirá — à representação.




















.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)















